7 de Dezembro de 2009

CLXXI - O Primeiro Natal em Portugal

É véspera de Natal. Mas não para Irina. Para ela só será Natal a 7 de Janeiro, quando as aulas tiverem recomeçado.
A mãe aproveita umas horas extra, na pastelaria, para preparar fornadas de bolos-reis.
O pai, antes de sair, marcou-lhe páginas e páginas de trabalhos de casa. É preciso, para poder acompanhar os colegas,
Folheando o dicionário, a pequena ucraniana procura as palavras portuguesas que há-de escrever em frente das que tão bem conhece.
ОЛiВЕДЬ — lápis
ЗОШИТ — caderno
КИГА — livro
ШКОЛА — escola
Tudo diferente! Até o abecedário... Na escola, os outros fazem pouco dela e chamam-lhe “língua de trapos”. Que quererá isso dizer?
Vai à página 190, logo em seguida à 293. Era de calcular...
Tem, no entanto, orgulho em ser a melhor a matemática. Ninguém a bate em contas. Quando a professora entrega os testes e lhe dá vinte, há sempre um grupinho irritado que, no recreio seguinte, se junta, numa roda, à sua volta, cantarolando:

Irina, Irina, Irina,
Que menina tão fina!
Tem cara cor de sal,
Olhos cor de piscina.
Cabelos cor de margarina.
Ai, doem-te as saudades?
Vai tomar aspirina.

Na Ucrânia deixou tantos amigos...

Evita aqueles olhos escuros que se fixam nela, uns curiosos, outros trocistas, outros indiferentes.
Sente-se como uma extraterrestre. Porque é que os pais a mandaram vir?
Isola-se no recreio, a um canto, tentando desvendar a algaraviada das conversas. Às vezes, o Afonso murmura-lhe ao ouvido um segredo:
— Pareces uma fada!
E foge logo a correr.
Que palavrão será “fada”? Nem vale a pena procurar no dicionário. Algumas palavras que lhe dizem nem sequer lá vêm. A princípio ainda perguntou à mulher da limpeza o que significavam mas ela empurrou-a com a esfregona.
— Ordinária! Estes imigrantes mal sabem falar mas fixam logo a porcaria... Porque não voltam para o sítio de onde vieram?
Com lágrimas nos olhos, Irina vai agora à janela e vê as luzinhas acender e apagar nas árvores despidas. Por trás das paredes deslavadas das velhas casas, decerto se celebra a consoada. Como será?
Doze pratos se punham na mesa de festa no Natal da sua terra. Uma em memória de cada apóstolo.
É Natal em Portugal. Que interessa? A família está dispersa. A mãe a fazer bolos-reis que não vai provar porque para os ortodoxos é tempo de sacrifício e jejum. O pai lá anda, na construção civil. Como mais ninguém queria trabalhar na noite de 24, foi, sozinho, pintar um café que está a ser remodelado, ao fundo da rua. Os dois irmãos mais novos ficaram em Priluki, lá longe, com a avó.
Irina aquece a sopa e arranja uma sandes de queijo. Como pesa o silêncio!
De repente, sente um grito abafado no andar de cima. Algum assalto? Alguém que caiu? Não sentiu passos nem o baque de uma queda...
Com o coração a bater, põe-se a espreitar pelo óculo. Nada!
— Acudam! Acudam!
Mais ninguém se encontra no prédio. As lojas do rés-do-chão estão fechadas, os vizinhos do primeiro andar foram de férias. Por cima, na mansarda, mora uma rapariga nova, gorda, pálida.
Irina abalança-se a subir. A porta encontra-se apenas encostada e a miúda entra, a medo. Já ninguém grita. Um gemido fraco ecoa ao fundo do corredor.
Haverá feridos? Tem horror ao sangue. Por um momento, pensa em voltar para trás. Mas prossegue, pé ante pé, até ao quarto.
Deitada na cama, a moça, que ela conhece de vista, geme, agarrada à barriga enorme. Irina aproxima-se, repara que está alagada em suor.
— Ladrão atacar tu? Estar doente?
Tremendo, a outra responde:
— Chama o 112. O bebé vai nascer.
Que será o 112? Estará ela a delirar? Quase desfalece.
Então Irina precipita-se pela escada abaixo. A rua encontra-se deserta. Não conhece ninguém nas redondezas. Corre até ao café onde o pai está a pintar paredes.
— Pai, pai! — grita ela.
Anton desce do escadote, pousa o rolo, inquieto ao ver a filha naquela aflição.
— Que foi? Aconteceu alguma desgraça?
Mal sabe o que se passa, marca um número no telemóvel, dá a morada, pede urgência. Segue-a em passo apressado. Sobre eles desaba uma chuva gelada. Ficam com os cabelos a escorrer, encharcam os sapatos nas poças que, num instante, se formam.
Chegados ao prédio, o ucraniano galga os degraus dois a dois, entra sozinho no quarto da vizinha. A filha fica à espera.
— Irina, ferve uma panela de água. Traz-me um frasco de álcool, uma tesoura, toalhas.
A miúda obedece, confusa.
— Traz-me roupa lavada, para me mudar!
O pintor despe o fato-macaco, sujo de tinta e de pó, na casa de banho, enfia uma camisa branca, umas calças desbotadas. Esfrega as mãos e a tesoura com álcool.
— Irina, a água já ferve?
De novo no quarto, fala pausadamente com a rapariga, em voz alta. Ouve-se tudo cá fora.
— Força! Coragem! Está quase...
De súbito ouve-se o choro de um bebé.
— Entra, Irina — diz, pouco depois, o pai. — Vem ajudar. Já és crescida.
Entrega-lhe o recém-nascido.
A rapariga, na cama desalinhada, sorri.
— Embrulha-o num xailinho. Está na gaveta do meio.
Irina aconchega aquele corpo tão pequenino e frágil. Embala-o devagarinho, como fazia com as bonecas. Uma minúscula mãozinha aperta então o seu polegar.
O alarme de uma ambulância apita. Pára à entrada do edifício. Duas enfermeiras precipitam-se pela porta dentro.
— Então, viram-se atrapalhados? Um parto faz sempre confusão, principalmente aos homens.
— Sou médico — confessa o ucraniano. — Mas, em Portugal, ando nas obras...
As enfermeiras cruzam um olhar subitamente triste. Examinam a criança.
— O bebé nasceu no dia de Natal. É o nosso Menino Jesus.
A mãe olha para o homem e pergunta:
— Como é que o doutor se chama?
— Anton.
— António? Quer ser o padrinho? Vou pôr-lhe o seu nome.
As enfermeiras levam a rapariga e o bebé para a ambulância.
— Vão dar um passeio até à maternidade. Estão ambos óptimos.
— Manhã nós visitar! — exclama a garota.
Já passa da meia-noite. Pai e filha descem até ao patamar do primeiro andar. Na escada nunca há luz. Felizmente a gente do 112 usa lanternas... Mas, logo que o pessoal da ambulância se afasta, a escuridão instala-se. Às apalpadelas, o pai mete a chave na fechadura. Tropeça num embrulho.
— Que será? — espanta-se ele. — Esta é uma noite de surpresas.
Sobre o tapete de cairo está um embrulho enfeitado com um laçarote cor-de-rosa. Traz um bilhete preso com fita-cola.
Para uma fada loura.
com amizade
A menina abre-o. É um conjunto de canetas de ponta de feltro.
— O Pai Natal português não se esqueceu de ti — ri-se o médico.
— O Afonso é a única pessoa que me trata por fada — replica a Irina, um bocadinho corada.
Corre para o dicionário, passando as páginas até à número 159 e exclama, radiante:
OЗНАКА — fada
Depois, pega numa folha de papel e desenha, a amarelo, uma estrela a brilhar, a brilhar, a brilhar.


Luísa Ducla Soares
Há sempre uma estrela no Natal
Porto, Civilização Editora, 2006

5 de Novembro de 2009

CLXX - A Alegria de Viver

Já alguma vez cogitasses no por que muitas pessoas, ao se tornarem mais velhas, parecem perder toda a alegria de viver?
No momento, a maioria de vós, que sois jovens, é relativamente feliz; tendes vossos pequenos problemas, vossas preocupações sobre os exames, mas, apesar dessas perturbações, há, em vossa vida, uma certa alegria, não é verdade?
uma espontânea e natural aceitação da vida, uma visão das coisas despreocupada e feliz.
Mas, por que razão, ao nos tornarmos mais velhos, parecemos perder aquele ditoso pressentimento de algo transcendental, algo de mais significativo? Por que tantos de nós, ao alcançarmos a chamada maturidade, nos tornamos embotados, insensíveis à alegria, à beleza, ao céu sereno e às maravilhas da terra?
Quando uma pessoa faz a si própria esta pergunta, muitas explicações acodem-lhe ao espírito. Ternos muito interesse em nós mesmos - esta é uma delas. Lutamos para nos tornarmos alguém, para alcançarmos e conservarmos uma certa posição; temos filhos e outras responsabilidades, e ternos de ganhar dinheiro. Todas essas coisas que se agitam em nosso interior não tardam a deprimir-nos, e perdemos assim a alegria de viver. Vede os rostos dos mais velhos, de vosso círculo de conhecimentos, tristes que são, em maioria, e gastos, adoentados, reservados, alheados, não raro neuróticos, sem um sorriso. Não perguntais a vós mesmos por que são assim?
E mesmo quando indagamos o porquê disso, a maioria de nós parece satisfazer-se com meras explicações.
Ontem de tarde vi um barco que subia o rio, de velas pandas, impelido pelo vento oeste. Era um barco grande e transportava pesada carga de lenha destinada à cidade. O sol se punha e a embarcação, desenhada contra o céu, mostrava singular beleza. O barqueiro só tinha de guiá-la; nenhum esforço era necessário, pois o vento fazia todo o trabalho. Analogamente, se cada um de nós compreendesse o problema da luta e do conflito, penso que poderíamos viver sem esforço, felizes, de rosto sorridente.
Para mim, é o esforço que nos destrói, esse lutar em que despendemos quase todos os momentos de nossa vida, Se observardes, ao redor de vós, as pessoas mais velhas, podereis ver que para quase todos a vida é uma série de batalhas consigo mesmos, com suas mulheres ou maridos, com seu próximo, com a sociedade; e essa luta incessante dissipa energia. O homem que vive alegre, verdadeiramente feliz, está livre de todo esforço. Viver sem esforço não significa tornar-se estagnado, embotado, estúpido; ao contrário, só os homens sensatos, altamente inteligentes, estão verdadeiramente livres do esforço e da luta.
Mas, quando ouvimos falar em viver sem esforço, queremos viver assim, desejamos alcançar um estado em que não haja luta nem conflito; tornamo-lo, pois, esse estado, nosso alvo, nosso ideal, e por ele lutamos; e desde esse momento perdemos a alegria de viver. Estamos de novo empenhados em esforço, luta. O objeto da luta varia, mas toda luta é essencialmente a mesma. Um luta pela promoção de reformas sociais, ou para achar Deus, ou para criar melhores relações no lar ou com o próximo; outro senta-se à margem do Ganges ou se prostra devotamente aos pés de um guru - etc. etc. Tudo isso representa esforço, luta. O importante, por conseguinte, não é o objeto da luta, porém, sim, compreender a própria luta.
Ora, é possível a mente não apenas perceber ocasionalmente que não está a lutar, porém estar a todas as horas completamente livre de esforço, de modo que possa descobrir um estado de alegria em que não haja nenhuma idéia de superioridade e inferioridade?
O caso é que a mente se sente inferior e por esta razão luta para "vir a ser" alguma coisa, ou conciliar seus vários desejos contraditórios. Mas, não estejamos a dar explicações sobre por que a mente tanto luta. Todo homem que pensa sabe por que há luta, interior e exteriormente. Nossa inveja, avidez, ambição, nosso espírito de competição, que nos impele à mais impiedosa eficiência - são obviamente estes os fatores que nos fazem lutar, no mundo atual ou no mundo do futuro. Por tanto, não temos necessidade de estudar livros de psicologia para sabermos por que lutamos; e o que certamente, tem importância é que descubramos se a mente pode ficar totalmente livre de luta.
Afinal de contas, quando lutamos, o conflito é entre o que somos e o que deveríamos ou desejamos ser. Pois bem; sem se procurarem explicações, pode-se compreender todo esse processo de luta, de modo que ele termine? Como aquele barco levado pelo vento, pode a mente existir sem luta? A questão é esta, sem dúvida, é não como alcançar um estado em que não haja luta. O próprio esforço para alcançar tal estado é, em si, um processo de luta e, por conseguinte, aquele estado nunca pode ser alcançado. Mas, se observardes, momento por momento, como a mente se deixa colher nesse torvelinho de incessante luta - se observardes simplesmente o fato, sem tentar alterá-lo, sem impor à mente um certo estado que chamais "de paz" - vereis que, espontaneamente, a mente deixará de lutar; e nesse estado ela é capaz de aprender infinitamente.
Aprender já não é, então, mero processo de acumular conhecimentos, porém de descobrimento de extraordinárias riquezas existentes além do alcance da mente; e para a mente que faz tal descobrimento, há grande alegria.
Observai a vós mesmo, para verdes como lutais da manhã à noite, e como vossa energia se dissipa nessa luta. Se tratardes apenas de explicar por que lutais, ficareis perdido numa floresta de explicações e a luta prosseguirá; mas se, ao contrário, observardes vossa mente, com serenidade e sem dardes explicações; se deixardes simplesmente que vossa mente esteja cônscia de sua própria luta, vereis que muito depressa surgirá um estado no qual nenhuma luta haverá, um estado de extraordinária vigilância. Nessa vigilância, não há idéia de "superior" e "inferior", não há homem importante nem homem insignificante, não há guru. Todos esses absurdos desapareceram, por que a mente está inteiramente desperta; e a mente de todo desperta está cheia de alegria...
... Afinal de contas, que é "contentamento" e o que é "descontentamento"? "Descontentamento" é a luta pela consecução de mais, e o "contentamento" a cessação dessa luta; mas, não se chega ao contentamento, se se não compreende todo o "processo" relativo ao mais, e por que razão a mente o exige.
Se sois mal sucedido num exame, por exemplo, tereis de repeti-lo, não é verdade? Os exames, em qualquer circunstância, são uma coisa sumamente deplorável, porquanto nada representam de significativo, já que não revelaria o verdadeiro valor de vossa inteligência. Passar num exame é, em grande parte, um "golpe" de memória ou, também, de sorte; mas, vós lutais para passardes em vossos exames e, quando sois mal sucedidos, perseverais nessa luta. O mesmo "processo" se verifica diariamente, na vida da maioria de nós. Estamos lutando por alguma coisa e nunca nos detivemos para investigar se essa coisa é digna de lutarmos por ela. Nunca perguntamos a nós mesmos se ela merece nossos esforços e, portanto, ainda não descobrimos que não os merece e que devemos contrariar a opinião de nossos pais, da sociedade, de todos os mestres e gurus. É só quando temos compreendido inteiramente o significado do mais, que deixamos de pensar em termos de fracasso e de êxito.
Temos sempre medo de falhar, de cometer erros, não só nos exames, mas também na vida. Cometer um erro é coisa terrível, porque seremos criticados, censurados, por causa dele. Mas, afinal, por que não se devem cometer erros? Toda gente, neste mundo, não vive cometendo erros? E o mundo sairia da horrível confusão em que se encontra, se vós e eu nunca cometêssemos um erro? Se tendes medo de cometer erros, nunca aprendereis coisa alguma. Os mais velhos estão continuamente cometendo erros, mas não querem que vós os cometais e, com isso vos sufocam toda a iniciativa. Por quê? Porque temem que, pelo observar e investigar todas as coisas, pelo experimentar e errar, acabeis descobrindo algo por vós mesmo e trateis de emancipar-vos da autoridade de vossos pais, da sociedade, da tradição. É por essa razão que vos acenam com o ideal do êxito; e o êxito, como deveis ter notado, sempre se traduz em termos de respeitabilidade. O próprio santo, em seus progressos para a chamada perfeição espiritual, tem de tornar-se respeitável, porque, do contrário, não encontrará "aceitação", não terá seguidores.
Estamos, pois, sempre pensando em termos de êxito, em termos de mais; e o mais é encarecido pela sociedade respeitável. Por outras palavras, a sociedade estabeleceu, com todo o esmero, um certo padrão, pelo qual mede o vosso sucesso ou o vosso insucesso. Mas, se amais uma coisa e a fazeis com todo o vosso ser, então já não vos importa o êxito nem o fracasso. Nenhum homem inteligente se importa com isso. Mas, infelizmente, são raros os homens inteligentes, e ninguém vos aponta essas coisas. Tudo o que importa ao homem inteligente é perceber os fatos e compreender o problema - e isso não significa pensar em termos de êxito ou de fracasso. Só quando não amamos o que fazemos, pensamos nesses termos.

Krishnamurti

25 de Outubro de 2009

CLXIX - Estamos Juntos

"Se queres ir rápido, vai sozinho. Se queres ir longe, vai acompanhado."
Provérbio Africano

16 de Outubro de 2009

CLXVIII - Kali

Keshab Chandra Sen (1838-1884), o distinto líder do Brahmo Samaj, semi-hindu e semi-cristão, foi com alguns membros de seu séquito visitar Sri Ramakrishna em Dalkshineswar, um subúrbio da moderna cidade de Calcutá, onde o santo mestre oficiava como sacerdote no templo dedicado à Deusa Negra, Kali.
Keshab era um moderno e ocidentalizado cavalheiro hindu, de aparência cosmopolita, imbuído de uma filosofia religiosa progressiva, humanista e “sattvica” – em nada diferente daquela de seu contemporâneo da Nova Inglaterra, o transcendentalista (e estudioso da Bhagavadgita), Ralph Waldo Emerson.
Ramakrishna, por outro lado, era inteiramente hindu: ignorava, de propósito, o Inglês; nutria-se das tradições de sua terra natal; com longa prática nas técnicas da contemplação introvertida e pleno de experiências do divino.
O diálogo entre ambos os líderes religiosos foi o encontro da Índia moderna, temporal, e a Índia intemporal; entre a moderna consciência indiana e os símbolos divinos semi-esquecidos de seu próprio inconsciente.
Além disso, merece destaque o facto de que, nesta ocasião, o mestre não era o cavalheiro bem vestido e tradicionalmente educado no Ocidente – recebido em Londres pela própria rainha – mas sim o iogue em seus farrapos, falando dos deuses indianos com base em sua própria e directa experiência.
Keshab (sorrindo): “Descreva-nos, Senhor, de quantas maneiras Kali, a Mãe Divina, joga neste mundo”
Sri Ramakrishna (também sorrindo):
"Ó! Ela joga de maneiras diferentes. Unicamente Ela é conhecida por Maha-Kali (a Grande Negra), Nitya-Kali (a Sempre Negra), Smasana-Kali (Kali, a do crematório), Raksa Kali (Kali, a Duende) e Syama Kali (Kali, a Escura). Maha-Kali e Nitya-Kali são mencionadas na filosofia tântrica. Quando não existia criação, Sol, Lua, planetas ou Terra, e quando a escuridão estava envolvida pela escuridão, então a Mãe, a Sem-Forma, Maha-Kali, a Grande Potência, era una com Maha-Kala (esta é a forma masculina do mesmo nome), o Absoluto. Syama-Kali tem um aspecto um tanto mais suave e preside os cultos domésticos indianos. É a Dispensadora de benefícios e a Dispensadora do temor. As pessoas adoram Raksa-Kali, a Protectora, em tempos de epidemia, fome, terramoto, seca e enchentes. Smasana-Kali é a encarnação do poder da destruição. Reside no crematório cercada por cadáveres, chacais e terríveis espíritos femininos. De sua boca emana uma torrente de sangue, de seu pescoço pende uma grinalda de caveiras e, cingindo sua cintura, leva uma tira feita de mãos humanas. Após a destruição do Universo, ao fim do Grande Ciclo, a Mãe Divina armazena as Sementes para a próxima criação. Ela como a velha dona de casa que tem um baú onde guarda os mais diferentes artigos de uso doméstico. (Todos riem.) Ó, sim! As donas de casa têm lugares deste tipo onde guardam espuma de mar, pílulas azuis, pequenos feixes com sementes de pepino, abóbora e assim por diante. Elas utilizam tudo isso quando necessitam. Do mesmo modo, após a destruição do Universo, minha Mãe Divina, a encarnação do Brahman, recolhe todas as sementes para a próxima criação. Após a criação, o Poder Primordial reside no próprio Universo. Ela faz surgir este mundo fenoménico e nele penetra. Nos Veda, a criação é comparada à aranha e sua teia. A aranha tira a teia de si mesma. Deus é o continente do Universo e também seu conteúdo.
Kali, minha Mãe Divina, tem pele escura? Ela parece ser negra porque é vista à distância; mas deixa de parecer assim quando a conhe­cemos em sua intimidade. O céu parece azul à distância mas, quando se observa o ar em volta, percebe-se que não tem cor. A água do oceano parece azul à distância mas, quando nos aproximamos e a colhemos em nossas mãos, vemos que ela é incolor.”
Sri Ramakrishna, arrebatado de amor pela deusa, cantou em seu lou­vor duas canções do devoto iogue bengali, Ramprasad, após o que continuou a conversa.
"A Mãe Divina é sempre alegre e jocosa. Este Universo é seu jogo. Ela é obstinada e faz sempre o que quer. Esta repleta de beatitude. Concede a liberdade a um entre cem mil."
Um devoto do Brahmo perguntou: "Mas, senhor, se Ela quiser, pode conceder a liberdade a todos. Por que, então, nos mantém acorrentados ao mundo?"
Sri Ramakrishna disse: "Esta é a sua vontade. Ela quer continuar jogando com seus seres criados. Num jogo de esconde-esconde a corre­ria logo pára se, já no começo, todos acham a “vovó”. Se todos a encon­tram, como pode o jogo prosseguir? Isto a deixaria descontente. Sua satisfação está em continuar o jogo.
É como se a Mãe Divina dissesse à mente humana em segredo, com um sinal d'olhos: “Vá e goza o mundo!” Como podemos culpar a mente? A mente pode se livrar do mundano apenas se, por meio de Sua graça, Ela a direcciona para Si mesma".
Cantando uma vez mais as canções de Ramprasad, Sri Ramakrishna inter­rompeu seu discurso para continuar em seguida:
"A escravidão pertence à mente, assim como a liberdade. Um homem é livre se ele pensa constantemente: “Sou uma alma livre, como posso estar escravizado, quer viva no mundo quer na floresta? Sou um filho de Deus, o Rei dos reis. Quem pode agrilhoar-me? Quando picado por uma cobra, um homem pode livrar-se de seu veneno dizendo enfaticamente: “Em mim não há veneno”. Do mesmo modo, repetindo com firmeza e determinação: “não estou escravizado, sou livre”, ele realmente toma-se livre.
Certa vez alguém me deu um livro dos cristãos. Pedi-lhe que o lesse para mim. Não falava de outra coisa senão do pecado. E dirigindo-se a Keshab Chandra Sen, acrescentou: E também em teu Brahmo Samaj, o pecado é a única coisa de que se ouve falar. O infeliz que diz cons­tantemente: “estou escravizado, estou escravizado”, só consegue estar escravizado. Aquele que repete noite e dia: “sou um pecador, sou um pecador” realmente torna-se um pecador.
Deveríamos ter uma fé tão fervorosa em Deus a ponto de poder dizer: “O quê? Como pode o pecado estar em mim se tenho repetido o nome de Deus? Como posso ainda ser pecador? Como posso ainda estar escravizado?”
Se um homem repete o nome de Deus, seu corpo, sua mente e tudo mais se purificam. Por que deveríamos falar sobre pecado, inferno e coisas tais? Digamos somente: “Ó Senhor, sem dúvida realizei más lições, porém não as repetirei”. E tenhamos fé em Seu nome."
Sri Ramakrishna cantou:
"Se apenas pudesse eu falecer cantando o nome de Durga, Como poderias Tu, então, o Bem-aventurado, negar-me a liberação, por miserável que eu fosse?..."
Disse logo: “Orei à Minha Mãe Divina pedindo tão só amor puro, ofereci flores a Seus pés de lótus e roguei-Lhe: “Mãe, aqui está Tua virtude, aqui está Teu vício. Toma ambos e concede-me apenas amor puro por Ti. Aqui está Teu conhecimento, aqui está Tua ignorância. Toma ambos e concede-me apenas amor puro por Ti. Aqui está Tua pureza, aqui esta Tua impureza. Toma ambas e concede-me apenas amor puro por Ti. Aqui está teu dharma, aqui está Teu adharma. Toma ambos, Mãe, e concede-me apenas amor puro por Ti.””

Filosofias da Índia, Heinrich Zimmer

20 de Setembro de 2009

CLXVII - Pedacinho de Deus

Se sentes dentro de ti a vontade de amar
Em gestos que criam fontes
A audácia de sonhar
Mais longínquos horizontes e o apelo a escalar
Cada vez mais altos montes
Cada vez mais altos montes
E então...

Tens em ti um pedacinho de Deus
Tens rumos certos no coração
Desperta o sonho, tens em ti os céus
Liberta a vida da palma da mão
Faz desses rumos caminhos teus
De Jesus recebeste, de Jesus recebeste
Esta missão

Se sentes dentro de ti, sempre a sede de gritar
O nome da liberdade, a coragem de falar
A palavra da verdade e a seguir participar
Na construção da cidade
Na construção da cidade
E então...


19 de Junho de 2009

CLXVI - LOS OJOS SON FAROS DE LUZ, NO PROYECTORES DE MIEDO

bequinhas!
Si queremos cambiar la realidad, la única forma en que podemos hacerlo es cambiando el sistema de creencias, no existe otra. La parte más complicada es el dejar de juzgar.
Entonces nosotros proyectábamos en el otro lo que en realidad nosotros teníamos por dentro.

Todas las personas de las que yo he hablado mal de ellas, en realidad, eso malo que yo digo de los otros es algo que yo traigo adentro y que no lo he podido concientizar ni arreglar ni tal. Cada persona de la que yo hablo bien tiene algo de mí que para mí es parte positiva. Entonces la vida se convierte en un mosaico de posibilidades de que yo entienda realmente que es lo que me está pasando a mí por dentro.
Todos los días al salir a la calle, todas las personas, todos los pajaritos, todos los objetos que tú ves, en realidad, son cosas que te están hablando directamente a ti. Pero para poder entender y para poder sensibilizarte de lo que en realidad te están diciendo, uno tiene que estar presente.
Y la única condición para estar presente es no estar juzgando.

CREER ES CREAR
Una película
de Santiago Pando Marino

14 de Maio de 2009

CLXV - natureza essencial

Consciente de mim mesmo, sou também consciente de uma série de limitações. O"eu" que eu conheço é limitado. Eu sou consciente do meu corpo físico. Sendo consciente do meu corpo físico, eu também sou consciente das limitações que ele possui. Ele tem grandes capacidades, mas também grandes limitações. A mesma coisa com a minha mente, que analisa, questiona, interpreta, mas tudo dentro das suas próprias limitações. O meu sofrimento acontece porque, auto-consciente, eu me vejo consciente das minhas limitações. E ao me ver como um ser limitado, de várias maneiras limitado, eu sofro. Eu sofro porque me sinto limitado e por isso a minha felicidade também é limitada. Eu sinto-me constantemente ou frequentemente inadequado. Eu tenho poder de produzir, de alcançar, mas é limitado. Devido a essa capacidade de olhar para si mesmo, o ser humano, muitas vezes, pode não gostar do que vê. Constantemente nos damos conta das nossas limitações e sofremos, pensando em como poderíamos ser mais felizes se conseguíssemos ser diferentes. Essa mesma mente, que é uma grande bênção, também pode ser um grande problema, quando nos dá este sentimento de limitação, e nos faz estar constantemente em conflito. Se eu não estou bem comigo mesmo é porque estou vivendo somente a realidade da mente. O ser do qual eu sou consciente, que eu reconheço, é um ser limitado, por isso saber lidar com esta mente é fundamental. A solução está, não em tentar modificar as situações nas quais eu projecto a minha insatisfação. A solução está em modificar a minha visão de mim mesmo, modificar o ser insatisfeito. Jamais uma pessoa conseguiu verdadeiramente modificar o mundo à sua vontade. Isso porque tantas outras pessoas também querem modificar o mundo e têm padrões diferentes de como esse mundo deveria ser. Então jamais a solução poderia ser modificar o mundo para ajustá-lo à minha vontade. E mais: por mais que eu consiga mudar, transformar o mundo a minha volta, no processo de modificar o mundo nossos valores também se modificam, e nos descobrimos desejando outras mudanças. Se eu quero realmente ser feliz, preciso reconhecer que tenho que encontrar essa felicidade em mim mesmo, independente das situações.

Glória Arieira - professora de Vedanta

7 de Maio de 2009

CLXIV - Respiração Completa, natural e sem esforço.

Inspiração — Atitude aberta para receber e aceitar as pessoas e coisas tais como são. Participação e compenetração do indivíduo com o seu inundo ambiente.

Retenção — Aproveitamento total da energia. Reforço, vitalização. Concentração e aprofundamento da mente sobre conteúdos do eu. Cons­ciência da própria realidade.

Expiração — Entrega e expansão total de si próprio. Relaxa-se, afrouxa-se, descansa. Dádiva de si mesmo. Ge­nerosidade. Abnegação.

Suspensão — Atitude recep­tiva, expectante de algo novo. Consciência da própria re­latividade.

efei­tos: uma revitalização física geral, um circuito completo da vida afectiva e um processo completo de renovação men­tal. Esta seria a respiração própria de uma pessoa comple­tamente sã.

Hatha Yoga – António Blay

28 de Abril de 2009

CLXIII - Oito Versos que Transformam a Mente

becas, de ti
Certa vez, Geshe Chekawa, um monge tibetano que dominava inúmeros ensinamentos de diversas escolas, deparou-se com uma tira de papel comde duas linhas escritas e ficou maravilhado com o que leu:

Ofereça o ganho e a vitória aos outros.
Tome a perda e a derrota para si mesmo.

Então, procurou até encontrar um mestre capaz de o instruir no ensinamento das duas referidas linhas: Sharawa, discípulo de Geshe Langri Thangpa (mestre Kadampa do século XII, o autor da prática). Ao questioná-lo sobre a natureza daquelas linhas, obteve a resposta:
- Goste ou não desse ensinamento, só o pode dispensá-lo se não quiser alcançar o Estado de Buda.
Sharawa aceitou Chekawa como discípulo e instruiu-o durante anos nessa prática que era a sua, denominada "Os Oito Versos que Transformam a Mente" (ou "Os Oito Versos de Langri Thangpa"). Após 6 anos de treino constante, o discípulo atingiu a realização plena, eliminando todo e qualquer traço de egoísmo.


Os oito versos são:
1.
Com a determinação de alcançar
O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.
2.
Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
A pensar em mim como a mais insignificante dentre elas,
E, com todo respeito, considerá-las supremas,
Do fundo do meu coração.
3.
Em todos os meus actos, vou aprender a examinar a minha mente
E, sempre que surgir uma emoção negativa,
Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.
4.
Vou prezar os seres que têm natureza perversa
E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
Muito difícil de achar.
5.
Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha personalidade,
Ou a insultarem e caluniarem,
Vou aprender a aceitar a derrota,
E a eles oferecer a vitória.
6.
Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
Vou aprender a ver essa outra pessoa
Como um excelente guia espiritual.
7.
Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
E a tomar sobre mim, em sigilo,
Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.
8.
Vou aprender a manter estas práticas
Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
E, ao compreender todos os fenómenos como ilusórios,
Serei libertado da escravidão do apego.

As oito preocupações mundanas são:

1. Desejar elogios
2. Rejeitar críticas
3. Desejar o prazer
4. Rejeitar a dor
5. Desejar o ganho
6. Rejeitar a perda
7. Desejar a fama
8. Rejeitar ser ignorado


Esse texto foi ensinado por S.S. o Dalai Lama no Brasil em abril de 2006, no templo Zu Lai, em Cotia (SP).

5 de Abril de 2009

CLXII - Reiki

Só por hoje,

1. não te irrites

2. não te preocupes

3. trabalha com consciência

4. sê bondoso

5. sê grato